Cirilo de Alexandria

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São Cirilo de Alexandria
Afresco na Igreja de São Salvador em Chora, Istambul
Patriarca de Alexandria,
Confessor, Padre grego,"Pilar da Fé" e
Doutor da Igreja (Doctor Incarnationis)
Nascimento 3751
Morte 444
Veneração por Igreja Católica
Igreja Ortodoxa
Igreja Ortodoxa Oriental
Anglicanismo
Luteranismo
Festa litúrgica 18 de Janeiro e 9 de Junho na Igreja Ortodoxa
e 27 de Junho na Igreja Católica e Igreja Luterana
Atribuições Vestido como bispo com um felônio e um omofório, frequentemente com a cabeça coberta no estilo dos monges egípcios (por vezes, a cobertura da cabeça apresenta um padrão de polystavrion), é comumente retratado segurando os Evangelhos ou um pergaminho, com a mão direita levantada como quem transmite uma bênção
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São Cirilo de Alexandria (375-444) foi o Patriarca de Alexandria quando a cidade estava no topo de sua influência e poder dentro do Império Romano. Um dos Padres gregos, Cirilo escreveu extensivamente e foi o protagonista liderante nas controvérsias cristológicas do final do século IV e do século V. Foi uma figura central no Primeiro Concílio de Éfeso, em 431, que levou à deposição de Nestório da posição de Patriarca de Constantinopla. Cirilo é listado entre os Pais e os Doutores da Igreja, e sua reputação no mundo cristão resultou em seus títulos: Pilar da Fé e Selo de Todos os Pais. Entretanto, os bispos nestorianos no Concílio de Éfeso o declararam um herético, rotulando-o como um "monstro, nascido e criado para a destruição da Igreja".2

Índice

Biografiaeditar

Cirilo nasceu por volta de 375 ou 378. João de Nikiu afirma que ele nasceu em uma vila chamada Didusja3 (em copta) e Teodósio (em grego),4 provavelmente próxima ou coincidente com a atual El-Mahalla El-Kubra; autores posteriores, especialmente gregos, porém, dão como sua cidade natal Alexandria, o que várias fontes modernas corroboram.1 5 Sua mãe seria natural de Mênfis e passou algum tempo em mosteiros em Alexandria, antes de se casar.4

Educaçãoeditar

Alguns anos depois, em 385, Teófilo assumiu a posição de Patriarca de Alexandria.6 Teófilo era tio de Cirilo, (segundo a Enciclopédia Católica, irmão de seu pai;7 de acordo com John McGuckin, irmão mais velho de sua mãe) e guiou a educação de seu sobrinho. Em Alexandria, Cirilo recebeu educação clássica e teológica.5 Provavelmente estudara gramática entre os doze e quatorze anos, entre 390 e 392, retórica e humanidades dos quinze aos vinte anos e, por fim, teologia e estudos bíblicos entre 398 e 402. Provavelmente entrou em contato com os autores que viriam a influenciar sua exegese nesse último período. Entre suas leituras, se destacam Atanásio, Orígenes, Clemente de Alexandria, Basílio de Cesareia,8 Eusébio de Cesareia, Dídimo o Cego e até mesmo João Crisóstomo, a quem viria a citar extensivamente apesar do Sínodo do Carvalho. Outra influência relevante foi Isidoro de Pelúsio, importante líder nos círculos monásticos do Egito, dezoito anos mais velho que Cirilo. Embora a relação entre os dois ainda precise ser clarificada, Isidoro escrevia-lhe frequentemente, comumente em um tom crítico com surpreendente franqueza para um clérigo provincial, embora não houvesse sinal de ressentimento entre os dois. Por isso, cogita-se que Isidoro era um conselheiro respeitado, e talvez tivesse sido mentor do futuro patriarca.9

Se ele foi o Cirilo citado por Isidoro, então ele viveu um tempo como monge.7 Segundo Gibbon, este período seriam cinco anos da juventude de Cirilo vividos nos monastérios de Nítria, até Teófilo chamá-lo à cidade.8 Uma carta de Isidoro na qual o remetente reclama do excesso de "interesses mundanos" de Cirilo, em oposição à busca da solidão, também é usada para sustentar essa afirmação. Entretanto, não é certo que Cirilo tenha passado pela vida monástica. O fato de nunca mencionar este suposto fato ao escrever, como arcebispo alexandrino, para monges egípcios é considerado surpreendente. Severo de Antioquia tinha dúvidas sobre essa tradição. Ibn al Muqaffa suporta essa hipótese, mas cita Serapião o Sábio como mentor de Cirilo, ao invés de Isidoro, e é considerado uma fonte pouco confiável. McGuckin cogita que, afinal, Cirilo tenha passado algum tempo em monastérios como parte de sua educação para a vida eclesiástica, dada a importância dessas instituições para o cristianismo egípcio à época.10

Início da carreira eclesiástica e Sínodo do Carvalhoeditar

Em 403, com aproximadamente vinte e cinco anos, Cirilo terminou seus estudos e foi ordenado leitor da igreja alexandrina, ao lado de seu tio patriarca. A partir daí, ascendeu a cargos eclesiásticos mais altos, mas provavelmente já estava ligado às esferas superiores da Igreja de Alexandria desde o começo. (McGuckin faz notar que, à época do Concílio de Éfeso, Nestório assentara-se apenas por um ano no trono do Patriarcado de Constantinopla, enquanto Cirilo teria vinte e cinco anos de contato e experiência com a política da Igreja no nível mais superior, o que poderia ter lhe dado muito mais habilidade e pode ter decidido o resultado do concílio).11

No mesmo ano, Cirilo acompanhou Teófilo ao Sínodo do Carvalho. Este sínodo, realizado em Calcedônia,12 resultou na deposição de São João Crisóstomo do Patriarcado de Constantinopla.7 Teófilo teve um papel central na deposição, e Cirilo alinhou-se à opinião de seu tio, de que Crisóstomo fora justamente deposto. Esse posicionamento causou atrito com Roma, que exigia a reabilitação de João. As relações entre Roma e Alexandria, inclusive, ficaram abaladas até os primeiros anos do patriarcado de Cirilo.11

Durante o mandato de seu tio, Cirilo apoiou a deposição de João Crisóstomo e, no início de seu patriarcado, rejeitou a restauração do nome de Crisóstomo nas comemorações em Constantinopla e Antioquia. Entretanto, desde por volta de 417, o patriarca alexandrino começou uma longa e diplomática reabilitação de João, abandonando aos poucos a posição de seu tio e adotando a sua própria, o que reduziu o desconforto com a Cúria Romana. João Crisóstomo veio a ser muito citado nos sermões de Cirilo, que o consideraria um exemplo de ortodoxia. Não se sabe, porém, se esta reabilitação levou à restauração do nome de João aos dípticos da igreja alexandrina. Tampouco conhecemos com certeza com que intensidade Cirilo respeitava João: enquanto João de Nikiu afirma que o patriarca o considerava um "professor" e restaurou sua honra com "grande alegria", Nestório afirma que Cirilo venerava as relíquias de João Crisóstomo relutantemente. McGuckin cogita que a resposta está entre esses extremos.13

Início do Patriarcado de Alexandriaeditar

Teófilo faleceu em 15 de outubro de 412. O patriarcado foi disputado, então, entre Cirilo e o arcediago Timóteo; da disputa, evoluiu um tumulto, resultado do conflito entre os apoiadores de cada um dos candidatos.7 Embora Timóteo tivesse o apoio de Abundâncio, o comandante das tropas romanas no Egito, Cirilo venceu: foi feito patriarca em 18 de outubro, três dias após o falecimento de Teófilo,14 apoiado pelos populares.8

O novo patriarca passou a exercer mais poder que seu antecessor, assumindo a administração de questões seculares e a autoridade do prefeito civil.14 Segundo Gibbon, sob o comando de Cirilo, os parabolani controlavam os programas de caridade, e os prefeitos egípcios temiam sua influência.2 À época, Alexandria, habitada por judeus, pagãos e cristãos, era conhecida pela instabilidade; Sócrates de Constantinopla afirma que nenhuma outra cidade era mais propensa a tumultos, sempre violentos.15 16

Expulsão dos Novacianoseditar

Cirilo fechou as comunidades dos novacianos e tomou seus objetos sacros.1 7 Os novacianos eram a seita dos seguidores do antipapa Novaciano; separaram-se da Igreja Católica basicamente porque criam que os cristãos que apostataram durante a perseguição de Décio não podiam ser perdoados e readmitidos. Entretanto, suas práticas condiziam com a dos católicos em quase todos os aspectos,17 e Gibbon os descreve como "os mais inocentes e inofensivos dos sectários".2 Segundo Sócrates, o bispo novaciano Teopempto teve também suas posses cassadas.14

Conflito com Orestes e a comunidade judaicaeditar

A comunidade judaica de Alexandria era grande e tradicional. Presentes na cidade desde sua fundação, havia sete séculos, eram bem sucedidos e protegidos pela lei secular. Na época de Cirilo, os judeus alexandrinos chegavam a ser quarenta mil.2

Sócrates Escolástico conta que, durante uma deliberação sobre alguma festividade dos judeus, eles acusaram um monge Hierax, exaltado seguidor de Cirilo, de incitar tumulto entre os presentes.14 Orestes, o prefeito, que invejava o poder dos bispos, aproveitou para tomar o monge, torturá-lo e assassiná-lo em público. Cirilo foi aos principais judeus e os ameaçou. Esses, por sua vez, organizaram um ataque aos cristãos: saíram, em uma noite, pelas ruas, anunciando um suposto incêndio em uma igreja. À medida que os cristãos saíam para salvar seu templo, os judeus os assassinavam.16 Gibbon, por sua vez, cogita que a morte dos cristãos possa ter sido acidental;2 de qualquer forma, sabe-se que houve o assassínio dos cristãos pelos judeus.7 15

Seja como for, Cirilo respondeu aos ataques indo, acompanhado por uma multidão, às sinagogas, tomando os judeus à força; pegos de surpresa, não puderam se defender e foram expulsos da cidade.7 15 As sinagogas foram demolidas e os bens dos judeus saqueados. Vários historiadores afirmam que praticamente todos os judeus (que chegariam a ser quarenta mil cidadãos) foram expulsos da cidade; outros, porém, vêem nesta afirmação um exagero. Sabe-se, de qualquer forma, que grande parte da população judaica foi expulsa de Alexandria.1 2 5 16

Orestes ficou descontente com o ocorrido: a perda de grande parte da população o desagradou e, ademais, os judeus eram protegidos pelas leis.2 O prefeito comunicou o ocorrido ao imperador Teodósio; entretanto, Élia Pulquéria, a imperatriz, era profundamente cristã e intercedeu em favor dos cristãos, conseguindo sobrepor-se à voz de Orestes. Após o conflito, diz Sócrates, Cirilo tentou reconciliar-se com Orestes, escrevendo-lhe e enviando mensageiros, mas as negociações fracassaram.16

Ataque a Oresteseditar

As reclamações do prefeito, afirma Gibbon, descontentaram alguns monges nitrianos. Enquanto a carruagem de Orestes passava pelas ruas, cerca de quinhentos desses monges atacaram-na, acusando o prefeito de paganismo. A maioria dos guardas do prefeito fugiram; Orestes informou que era cristão batizado, mas os monges continuaram atacando-o a pedradas, ferindo-lhe a cabeça.2 7 18

A população alexandrina dispersou os monges. Amônio, o monge lançador da pedra que feriu o prefeito, foi capturado. Como punição, foi torturado até a morte publicamente. Cirilo tomou o corpo do torturado, levou-o a uma igreja e mandou listá-lo entre os mártires, intitulando-o Thaumasius.2 7 nt 1 Segundo Sócrates, este ato foi malvisto, mesmo entre os cristãos: Amônio teria morrido não por não renunciar a fé, mas sim por um crime comum. Cirilo mesmo seria consciente disso, afirma Sócrates, de modo que procurou deixar o episódio cair no esquecimento.18

Assassinato de Hipátiaeditar

Hipátia, segundo uma gravura tradicionalmente usada para representá-la.

Habitava Alexandria, à época, uma filósofa chamada Hipátia. Pagã e neoplatonista, era considerada muito sábia e virtuosa, mesmo pelos cristãos. Entretanto, corriam boatos de que ela prevenia Orestes contra Cirilo, porque Hipátia era amiga do prefeito.19 Assim, na quaresma de 415 (ou 416),20 uma multidão, incitada por um leitor chamado Pedro, tomou-a de sua carruagem, arrastou-a até uma igreja e a assassinou, desmembrando-a e queimando seu corpo.12 Gibbon afirma que os perpetradores do assassinato foram poupados da justiça através de suborno.2

A relação de Cirilo com o ocorrido é controversa. Sócrates e Gibbon afirmam que sua morte trouxe opróbrio para a Igreja de Alexandria e seu patriarca, mas não mencionam envolvimento de Cirilo.2 Damáscio, por sua vez, atribui explicitamente o assassinato ao patriarca, que invejaria Hipátia;21 a Enciclopédia Católica, porém, lembra que Damáscio escreveu em um tempo bem posterior, e afirma que ele repudiava os cristãos.7 Vários autores tendem a atribuir culpa ou responsabilidade indireta ao patriarca: ele teria incitado as multidões com seus discursos, mesmo não dando ordens explícitas. Segundo Mangasarian, Cirilo não gostava da popularidade de Hipátia. "Acreditava que ela estava competindo com o cristianismo, levando para longe de Cristo as homenagens que pertenciam a ele (...) Ela estaria roubando de Deus os seus direitos, e devia cair. Tal foi o raciocínio de Cirilo, que a Igreja canonizou."12 22 nt 2 Outros afirmam, porém, que as multidões agiram por iniciativa própria e que Cirilo não tinha controle da situação. De qualquer forma, o episódio ficou associado a Cirilo.23

Também há algumas dúvidas sobre as motivações. McGuckin cogita que o crime tenha sido resultado de uma tentativa de conversão forçada. Algumas pesquisas modernas creem que o episódio resultou do conflito de duas facções cristãs: uma mais moderada, ao lado de Orestes, e outra mais rígida, seguidora de Cirilo.24

A reação de Constantinoplaeditar

A constante violência em Alexandria levou Orestes a escrever uma carta denunciando Cirilo à corte bizantina. Teodósio II tinha apenas 14 anos, e sua irmã Élia Pulquéria reinava como regente. Cirilo escreveu-lhe também, afirmando que a expulsão dos judeus fora um ato para proteger os cristãos. Como resultado Pulquéria implantou uma comissão de inquérito para avaliar a situação.25

Em 416, Edésio, o investigador enviado por Constantinopla, concluiu que os parabolani eram uma ameaça à segurança pública. Como consequência, limitou-se o número de parabolani a quinhentos; além disto, o grupo estaria subordinado, agora, ao prefeito. A nova legislação ainda admoestava o bispo a manter-se distante da política: "apraz Nossa Clemência [o imperador] que os clérigos não devam ter nada em comum com questões públicas ou temas pertinentes ao senado municipal."26 Entretanto, dois anos depois, haveria uma notável restauração do poder de Cirilo: o número de parabolani subiu para 600, e foram novamente colocados sob direção do patriarca.27 25

Polêmica com Nestório e Concílio de Éfesoeditar

Entre 427 e 428, Nestório, um monge nativo de Germanícia que vivia em Antioquia, foi elevado ao Patriarcado de Constantinopla. Seguindo a tradição da escola teológica síria, Nestório se opunha ao uso do termo Theotokos (em grego, mãe de Deus) para se referir à Virgem Maria.2 Cirilo, porém, defendia e incentivava o uso do termo, como consequente da natureza única de Cristo; assim, em 429, escreveu uma carta pascal apoiando o uso do título. Os patriarcas trocaram correspondências, em um tom relativamente moderado. Nestório, então, envia seus sermões ao Papa Celestino I, pedindo sua opinião, mas não obtém resposta. Posteriormente, Cirilo também escreve ao papa, solicitando que decrete sua opinião.7

O papa decidiu a favor de Cirilo e delegou ao patriarca alexandrino a autoridade de cassar o episcopado de Nestório e impor um prazo de dez dias para que Nestório apresentasse penitência e arrependimento. Cirilo escreveu a Nestório uma carta, em um tom não conciliatório, exigindo que Nestório apresentasse arrependimento e penitência em dez dias. Além disso, acrescentou à carta doze anátemas que o patriarca bizantino deveria confirmar; esses anátemas, acrescentados pela própria conta de Cirilo, viriam a ser fonte de grande polêmica.2

O imperador Teodósio I e as igrejas do Leste resistiram ao veredito papal, de modo que Teodósio conclamou um concílio ecumênico para o ano 431, em Éfeso. Nestório chega à cidade logo após a Páscoa; Cirilo, acompanhado de uma grande comitiva, chega por volta do Pentecostes. Cirilo aliou-se a Mênon, bispo de Éfeso, e Nestório encontra todas as igrejas fechadas, além da oposição dos efésios.2

Enquanto isso, João de Antioquia se atrasara, assim como os enviados do papa, que determinariam se Nestório poderia ou não participar no Concílio. Cirilo temia que João atuasse em favor de Nestório e que estivesse tentando ganhar tempo para seu adversário. Assim, no dia 22 de junho, antes da chegada dos emissários papais e dos bispos do Leste, Cirilo abriu o concílio, na posição de presidente e representante papal (embora não tivesse sido comissionado para tal representação ante o conselho), a despeito do pedido de sessenta e oito bispos e de Candidiano, o representante imperial, para que aguardasse. Esses bispos e o representante do Imperador acabaram excluídos do concílio.2 Cirilo também mandou quatro bispos convocarem Nestório, para que ele se explicasse, mas o patriarca de Constantinopla não os recebeu.7

Sem a participação dos sessenta e oito bispos, dos bispos do leste que ainda não chegaram, de Nestório e de Candidiano, o Concílio foi unânime: as cartas de Cirilo foram declaradas compatíveis com o Credo Niceno e a doutrina dos Pais da Igreja. Houve uma condenação unânime, sem discussão e uniforme até mesmo no estilo, a Nestório, que deveria ser deposto e excomungado. Entretanto, em 26 ou 27 de junho, João e sua comitiva de bispos chegaram a Éfeso. Depois de se reunirem com Candidiano, João e os demais bispos do Leste declararam outro concílio, que condenaria Cirilo e Mênon por apolinarianismo e anomoeanismo através de outros doze anátemas.7 Em resposta, Cirilo e Mênon declaram a deposição de João de Antioquia.2

Enquanto isso, o caos toma Éfeso. Mênon fecha as igrejas aos bispos orientais e guarnece a catedral da cidade; Candidiano tenta tomá-la, com as tropas do Imperador, mas fracassa. O conflito entre os partidários de Cirilo e de Nestório chega às raias da violência física. Teodósio buscava o acordo entre as partes, fosse por argumentação ou por intimidação; concedeu amplos poderes a seus representantes efésios e chegou a promover um concílio alternativo, nos arredores de Éfeso, com alguns representantes de cada facção. Entretanto, os orientais não cediam aos argumentos, e os católicos, em maior número e com apoio papal, rejeitavam a reconciliação.2 Após três tumultuados meses, Teodósio dissolve o concílio e ameaça destituir Cirilo, João e Mênon. Depois de algum tempo sob custódia, Cirilo e João retornam a suas dioceses; o imperador adota a posição de Cirilo, e Nestório é deposto e exilado, primeiro em Antioquia, depois em Petra e posteriormente no Grande Oásis do Egito.7

Em 432, morre o papa Celestino I; seu sucessor, Sisto III, corrobora o resultado do concílio presidido por Cirilo. Sisto tenta convencer João a entrar em acordo com o patriarca alexandrino; o patriarca de Antioquia resiste, mas acaba se reconciliando com Cirilo. Após o concílio, Cirilo escreveu ainda vários tratados, cartas e sermões. Foi patriarca alexandrino até a sua morte, em 9 ou 27 de junho 444; seu patriarcado se estendeu por trinta e dois anos.7

Obraeditar

Cirilo foi um arcebispo erudito e um escritor prolífico. Nos primeiros anos da sua vida ativa na Igreja, ele escreveu exegeses diversas. Entre elas estavam: Comentários sobre o Antigo Testamento,28 Thesaurus, discurso contra Arianos, Comentário do Evangelho de João,29 e os Diálogos sobre a Trindade. Em 429 as controvérsias cristológicas aumentaram sua produção de textos, de modo que seus adversários não conseguiram acompanhar. Seus escritos fazem frequentemente alusão às doutrinas dos demais Padres da Igreja.

Cirilo de Alexandria tornou-se conhecido na história da Igreja, por causa de seu espírito de luta do título de "Theotokos30 " (Mãe de Deus), durante o Concílio de Éfeso (431). Inclusive, na Liturgia da Palavra, a leitura recomendada pela Igreja Católica para o dia deste santo é exatamente uma defesa do título de Mãe de Deus. Seus escritos incluem a homilia pronunciada em Éfeso e vários outros sermões. Em vários escritos, Cirilo centra-se no amor de Jesus a sua mãe. Na cruz, ele supera sua dor e pensa em sua mãe. No casamento em Caná, ele faz uma reverência aos seus desejos.carece de fontes?

Abundam no estilo da prosa de Cirilo as construções inusuais e peculiaridades dos textos produzidos em Alexandria. Sua preferência por arcaicas formas áticas é notável, assim como as frases longas e intrincadas, com várias orações subordinadas e construções complicadas.31 Como consequência, até seu estilo literário é controverso. Por vezes descrito como uma variedade poética de prosa,32 o estilo de Cirilo é considerado por muitos complexo, verboso e desagradável para o leitor moderno. Robert Wilken afirma que ele é "prolixo e túrgido, uma infeliz sinergia de grandiloquência e afetação";31 L. R. Wickham diz que há, nos textos de Cirilo, "toda a feiura estudada do Albert Memorial ou dos móveis do Segundo Império."33 O próprio Nestório classificou o texto de Cirilo como pomposo e difícil de ler. McGuckin, porém, tende a ser mais benévolo - enquanto reconhece que a prosa do patriarca é densa e difícil, sugere que esta dificuldade não se deriva somente do estilo, mas também das sutilezas dos argumentos.34

Para Cirilo, tal afetação provavelmente apresentava-se como sinal de erudição e prestígio; de fato, após o cristianismo tornar-se a religião oficial do Império Romano, seus autores passaram a adotar menos o idioma vernáculo (como o koiné era, no Novo Testamento), adotando cada vez mais formas antigas, especialmente áticas.31 O resultado foi uma prosa por vezes distanciada dos significados que queria transmitir e um tanto artificial.33

Comemoraçõeseditar

A Igreja Ortodoxa e as igrejas orientais celebram seu dia em 9 de junho e, junto com o Atanásio de Alexandria, em 18 de janeiro. A Igreja Católica não o comemora no calendário tridentino; sua celebração foi adicionada apenas em 1882, sendo 9 de fevereiro o seu dia. Aqueles que usam calendários anteriores à revisão de 1969 ainda observam este dia, mas a revisão atribuiu ao santo o dia 27 de junho, considerado o dia da morte do santo.35 A mesma data foi escolhida para o calendário luterano. O Papa Pio XII, em 9 de abril de 1944, por ocasião do XV centenário da morte de São Cirilo, promulgou a encíclica Orientalis Ecclesiae.36

Ver tambémeditar

Cirilo de Alexandria
(412 - 444)
Precedido por: Gold Christian cross.svg
Lista dos patriarcas / papas de Alexandria
Sucedido por:
Teófilo 24.º Dioscoro


Notas

  1. A nota 943 no Ecclesiastical Histories encontrado online (página 293) esclarece que "Thaumasius" significa, em grego clássico, "maravilhoso", "admirável".
  2. Ver nota 947 no Ecclesiastical Histories encontrado online (página 294).

Referências

  1. a b c d Cyril of Alexandria (c. 375 - 444) (em inglês). Página visitada em 01-10-2012.
  2. a b c d e f g h i j k l m n o p q Edward Gibbon. History of Decline and Fall of the Roman Empire (em inglês). Página visitada em 01-10-2012.
  3. João de Nikiu. THE CHRONICLE (em inglês). Página visitada em 01-10-2012.
  4. a b McGuckin 2004, pp. 2
  5. a b c Biography of St. Cyril of Alexandria (em inglês). Christian Classics Ethereal Library. Página visitada em 01-10-2012.
  6. Theophilus (em inglês). Página visitada em 01-10-2012.
  7. a b c d e f g h i j k l m n o St. Cyril of Alexandria (em inglês). Página visitada em 01-10-2012.
  8. a b c Edward Gibbon. History of Decline and Fall of the Roman Empire (em inglês). Página visitada em 01-10-2012.
  9. McGuckin 2004, pp. 3
  10. McGuckin 2004, pp. 3—4
  11. a b McGuckin 2004, pp. 5
  12. a b c Sócrates de Constantinopla século V, pp. cap. XV
  13. McGuckin 2004, pp. 5—6
  14. a b c d Sócrates de Constantinopla século V, pp. cap. VII
  15. a b c Preston Chesser. The Burning of the Library of Alexandria (em inglês). Página visitada em 01-10-2012.
  16. a b c d Sócrates de Constantinopla século V, pp. cap. XIII
  17. Novatian and Novatianism (em inglês). Página visitada em 01-10-2012.
  18. a b Sócrates de Constantinopla século V, pp. cap. XIV
  19. Smith 1846, pp. 537
  20. (HM) Hypatia (em inglês). Página visitada em 01-10-2012.
  21. Live of Isidore (em inglês). Página visitada em 01-10-2012.
  22. The Martyrdom of Hypatia (em inglês). Página visitada em 01-10-2012.
  23. Russell 2004, pp. 342
  24. Dzielska 1995, pp. 157
  25. a b McGuckin 2004, pp. 15
  26. Livro XVI, 16.2.42. Codex Theodosianus. Página visitada em 01-10-2012.
  27. Livro XVI, 16.2.43. Codex Theodosianus. Página visitada em 01-10-2012.
  28. Cyril of Alexandria, Commentary on Luke (1859) Preface. pp.i-xx.. Página visitada em 01-10-2012.
  29. Cyril of Alexandria, Commentary on John, LFC 43, 48 (1874/1885). Página visitada em 01-10-2012.
  30. Artemi, Eirini, The rejection of the term Theotokos by Nestorius Constantinople more and his refutation by Cyril of Alexandria, http://independent.academia.edu/EIRINIARTEMINationalandCapodistrianUniversityofAthens/Papers/1721697/The_rejection_of_the_term_Theotokos_by_Nestorius_Constantinople
  31. a b c Cirilo de Alexandria. In: Joel C. Elowsky. Commentary on John. 3 ed. [S.l.]: InterVarsity Press, 2013. vol. 1. ISBN 9780830829118 (Comentários do tradutor David R. Maxwell)
  32. A History of Classical Scholarship. 3 ed. [S.l.]: CUP Archive. p. 399. vol. 1, from the Sixth Century B.c. to the End of the Middle Ages.
  33. a b Russell 2002, pp. 205
  34. McGuckin 2004, pp. 4
  35. Editrice 1969, pp. 116
  36. ORIENTALIS ECCLESIAE (em inglês). Página visitada em 01-10-2012.

Bibliografiaeditar

  • Sócrates de Constantinopla, John. Historia Ecclesiastica. [S.l.: s.n.], século V. Edição moderna: Phillip Schaff. Socrates and Sozomenus Ecclesiastical Histories (em inglês). Nova Iorque: [s.n.], 1886.
  • McGuckin, John. Saint Cyril of Alexandria and the Christiological Controversy: His history, theology and texts (em inglês). Crestwood, Nova Iorque: [s.n.], 2004. ISBN 0-88141-259-7
  • Smith, William. Dictionary of Greek and Roman biography and mythology (em inglês). Londres: [s.n.], 1846.
  • Russell, Bertrand. History of Western Philosophy (em inglês). Londres: [s.n.], 2004. ISBN 0-415-32505-6
  • Dzielska, Maria. Hypatia of Alexandria (em inglês). Londres: [s.n.], 1995. ISBN 0-674-43775-6

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