Corrida do ouro na Califórnia

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Prospecto da época da Corrida do Ouro.

A Corrida do ouro na Califórnia (1848–1855) começou em 24 de janeiro de 1848, quando foi encontrado ouro em Sutter's Mill. Quando as notícias da descoberta se espalharam, cerca de 300 000 pessoas, oriundas do restante dos Estados Unidos e do exterior, acorreram à Califórnia.

Estes garimpeiros temporões, denominados forty-niners (ou seja, de 1849), viajaram para a Califórnia por mar e em carroções através do continente, frequentemente enfrentando grandes provações ao longo da jornada. Enquanto a maioria dos recém-chegados era estadunidense, a Corrida do Ouro também atraiu dezenas de milhares de pessoas da América Latina, Europa, Austrália e Ásia. No início, os garimpeiros obtiveram o ouro de cursos de água e leitos de rios usando técnicas simples, tais como o garimpo de bateia, e posteriormente desenvolveram métodos mais sofisticados de extração do ouro que foram ado(p)tados mundialmente. Ouro no valor de milhares de milhões de dólares a(c)tuais foi extraído, trazendo grande riqueza para uns poucos; a maioria, contudo, voltava para casa com pouco mais do que tinham no início da aventura. Os efeitos da Corrida do Ouro foram substanciais. San Francisco, Califórnia transformou-se de diminuto vilarejo de tendas numa cidade próspera, e estradas, igrejas, escolas e outras cidades foram construídas ao seu redor. Um sistema de leis e um governo foram criados, levando à admissão da Califórnia como estado em 1850. Novos métodos de transporte foram desenvolvidos, tais como navios a vapor, que entraram em serviço regular, e ferrovias foram construídas. A agricultura, próximo campo de crescimento da Califórnia, foi iniciada em larga escala por todo o estado. Todavia, a Corrida do Ouro também teve efeitos negativos: os nativos americanos foram atacados e expulsos de seus territórios tradicionais, e as minas de ouro causaram danos ao meio-ambiente.

A primeira descobertaeditar | editar código-fonte

Mina de ouro da Califórnia na Sierra Nevada, norte da Califórnia

A corrida do ouro começou em Sutter's Mill, próximo de Coloma.1 Em 24 de janeiro de 1848, James W. Marshall, um homem que trabalhava em Sacramento, e o pioneiro John Sutter, encontraram pedaços de um mineral brilhante numa calha que vinha de um moinho (pertencente a Marshall), que era de propriedade de Sutter, junto ao American River.2 Marshall trouxe as peças metálicas para a análise de Sutter, e os dois pesquisaram silenciosamente qual era o material das peças. O teste mostrou que Marshall havia encontrado ouro. Sutter ficou desanimado com a descoberta, e decidiu não relatar a descoberta, temendo que isso poderia arruinar seus projetos da construção de um império agrícola, sabendo que muitas pessoas se dedicariam à mineração com essa descoberta naquela região.3 Mas os rumores da descoberta acabaram por se espalhar, e em Março de 1848 foi anunciada publicamente a descoberta nos jornais de São Francisco, publicados e comercializados por Samuel Brannan. O mais famoso relato sobre a corrida do ouro na Califórnia foi feito por Brannan; após tanto escavar nas minas para encontrar e comercializar o ouro,4 ele saiu pelas ruas de São Francisco insanamente, segurando uma porção do mineral, gritando: "Gold! Gold! Gold from the American River!" (Ouro! Ouro! Ouro encontrado no rio American!)5

Os Forty-Ninerseditar | editar código-fonte

Garimpeiro bateando no rio Mokelumne

Os primeiros que chegaram para a procura de ouro, já desde a primavera de 1848, foram os próprios residentes da Califórnia: europeus, cidadãos dos E.U.A., "californianos 6 " e ameríndios 7 . No princípio, as notícias sobre a febre do ouro difundiram-se lentamente. Os primeiros pesquisadores de ouro que chegaram em 1848 viviam perto da Califórnia ou tinham tido conhecimento das notícias graças aos navios que cursavam as rotas mais rápidas que saíam da Califórnia. Vários milhares de cidadãos do Oregon formavam o primeiro grupo de estado-unidenses que chegou à Califórnia, através da rota de Siskiyou 8 . Depois, chegou gente do Havai, milhares de latino-americanos, entre os quais imigrantes do México, Peru e Chile 9 , tanto por terra como por mar 10 . Em finais de 1848, mais de 6.000 argonautas estavam já na Califórnia 10 . Apenas uns poucos tinham chegado por terra 10 . Alguns destes "Forty-eighters" 11 puderam recolher grandes quantidades de ouro de forma muito rápida, às vezes milhares de dólares no mesmo dia 12 13 .

Até os garimpeiros ordinários conseguiam obter em ouro de dez a quinze vezes o salário diário que obteria um trabalhador na Costa Este. Uma pessoa podia trabalhar durante seis meses nos campos de ouro, e obter o equivalente de seis anos de salário 14 .

No início de 1849, a notícia da febre do ouro já era conhecida em todo o mundo, e uma quantidade enorme de pesquisadores de ouro e negociantes começou a chegar desde praticamente todos os continentes. O maior grupo, em 1849, era de dezenas de milhares de estado-unidenses, que chegaram por terra e em alguns navios 15 . Os australianos 16 e neo-zelandeses ficaram a saber graças aos barcos que levavam jornais havaianos, e embarcaram aos milhares para a Califórnia 17 . Houve Forty-niners que vieram da América Latina, especialmente das regiões mineiras de Sonora 17 e Sinaloa, no México. Os que eram procedentes da Ásia, especialmente da China 18 , começaram a chegar em 1849, a princípio em pequeno número. Em chinês, a Califórnia era chamada "Montanha de ouro". Os primeiros imigrantes provenientes da Europa, começaram a chegar até final de 1849, principalmente vindos da França 19 , acompanhados de alguns alemães, italianos e britânicos 15 .

Estima-se que em 1849 chegaram à Califórnia cerca de 90.000 pessoas, aproximadamente metade delas por mar, e a outra metade por terra 20 . Este número inclui aproximadamente entre trinta e quarenta mil estrangeiros 15 . Em 1855, os pesquisadores de ouro, comerciantes e outros imigrantes somavam aproximadamente 300.000 pessoas 21 . O maior grupo de imigrantes era dos E.U.A., mas havia milhares de chineses, franceses, mexicanos e outros latinoamericanos 22 , seguidos de pequenos grupos de filipinos e espanhóis 23 . Também havia uns quantos mineiros de origem africana, talvez menos de quatro mil 24 , que chegaram do Caribe, Brasil e do sul dos Estados Unidos 25 .

Direitos legaiseditar | editar código-fonte

Quando começou a febre do ouro, a Califórnia era, na prática, um lugar sem lei. O dia da descoberta em Sutter's Mill, a Califórnia era ainda tecnicamente parte do México, embora sob ocupação militar dos E.U.A., como resultado da guerra México-Estados Unidos de 1846. O Tratado de Guadalupe Hidalgo, que fez terminar a guerra a 2 de Fevereiro de 1848, tinha transferido o domínio da Califórnia para os Estados Unidos. A Califórnia não era um território formalmente organizado, e a sua incorporação na União Americana não foi imediata.

Temporalmente, a Califórnia foi um território sob controlo militar, sem que houvesse poderes legislativo, executivo ou judicial para a região 26 . Os residentes actuavam sujeitos a uma confusa mistura de regras mexicanas e dos E.U.A., e com o juízo pessoal.

Os mineiros escavam o leito de um rio, após ter desviado a corrente para um canal preparado para tal.

O Tratado obrigava os Estados Unidos a respeitar as concessões territoriais que tinham sido feitas pelo governo mexicano 27 , mas as zonas mineiras estavam longe dessas ditas concessões, pelo que a febre do ouro não se viu afectada pelos termos do tratado. Os campos de exploração eram tecnicamente propriedade do governo dos Estados Unidos 28 , mas na prática eram terrenos sem legislação definida, e sem mecanismos para fazer valer qualquer lei sobre eles 29 .

Para os Forty-niners, isto foi uma vantagem, porque o ouro estava "livre para ser tomado". Não havia propriedade privada, nem impostos a pagar pelo mesmo 30 . Os Forty-niners elaboraram os seus próprios códigos, e as próprias formas de os pôr em vigor. Era subentendido que qualquer garimpeiro podia "reclamar" terras, mas essa reclamação apenas teria efeito enquanto essas terras fossem efectivamente exploradas 31 . Os mineiros costumavam reclamar as terras, e começavam a explorá-las apenas o suficiente para determinar o seu potencial. Se a terra se considerava de baixo valor, como ocorreu na maioria dos casos, os mineiros abandonavam-na e prosseguiam a busca da sua fortuna noutro local. Outros mineiros podiam então chegar a reclamar para si a terra que já tinha sido trabalhada e abandonada. Esta prática designava-se como "claim-jumping" 31 . As disputas eram manejadas pessoalmente e às vezes de forma violenta; em muitas delas os próprios garimpeiros se associavam para actuar como árbitros 28 31 .

Desenvolvimento de técnicas para a extracção do ouroeditar | editar código-fonte

A alta concentração de ouro na areia da Califórnia, permitiu que inicialmente se necessitasse apenas utilizar uma bateia, para obter um concentrado de ouro nos rios e correntes de água 32 . Não é possível fazer esta operação em grande escala, pelo que os mineiros começaram a desenhar máquinas que os auxiliariam 33 a processar grandes volumes de gravilha 34 .

Nas operações mais complexas, os mineiros desviavam rios inteiros para canais construídos ao longo do rio, para depois escavar no leito do rio, agora exposto 35 . Os cálculos da United States Geological Survey, dizem que foram removidas 12 milhões de onças de ouro36 , equivalentes a 370 toneladas, durante os primeiros cinco anos da febre do ouro. Esta quantidade de metal equivalia a 7,2 milhares de milhões de dólares, a preços de final de 2006 37 .

No moinho de quartzo em Grass Valley, triturava-se a pedra de quartzo antes da lavagem do ouro.

Na etapa seguinte, até 1853, tiveram lugar as primeiras operações de mineração hidráulica. Esta técnica foi utilizada em leitos de gravilha que havia nas colinas dos campos de ouro 38 , dirigindo uma corrente de água de alta pressão até às jazidas de ouro, soltando a gravilha que é recuperada em canais, onde o ouro se sedimenta. Estima-se que em meados da década de 1880, esta técnica serviu para recuperar onze milhões de onças de ouro, equivalentes a 6,6 milhares de milhões de dólares, a preços de finais de 2006 37 . Um subproduto indesejado desta técnica eram as grandes quantidades de gravilha solta, metais e outros contaminantes, que foram depositadas nos rios 39 . Algumas áreas ainda apresentam cicatrizes deixadas pela mineração hidráulica, já que a vida vegetal não se desenvolve nos depósitos de gravilha e de terra exposta 40 .

Depois de cessar a avalanche de imigrantes da febre do ouro, as operações para a recuperação do metal continuaram. Na etapa final para recuperar o ouro solto, era procurado nos leitos dos rios e nos estuários do Vale Central e outras áreas, como Scott Valley, em Siskiyou. Em finais do século XIX, a tecnologia de dragagem era bastante económica, e começou a usar-se para a exploração mineira na Califórnia 41 , resultando na extracção de mais de 20 milhões de onças, equivalentes a 12 milhares de milhões de dólares 37 .

Durante a febre do ouro e nas décadas seguintes, os pesquisadores de ouro também se dedicaram à mineração tradicional, extraindo o ouro directamente da rocha que o continha, tipicamente quartzo. Operavam normalmente escavando e dinamitando a rocha, para seguir os veios de quartzo e recuperá-los 42 . Já que estas rochas eram transportadas até à superfície, eram trituradas, e o ouro separava-se usando água corrente, ou com a ajuda de arsénico ou mercúrio 43 . No final, a mineração tradicional acabou por ser a única actividade de extracção de ouro na região 37 .

Lucroseditar | editar código-fonte

Uma crença popular é que os comerciantes ficaram com mais lucros da febre do ouro que os próprios pesquisadores de ouro. A realidade é, no entanto, mais complexa. Efectivamente, os lucros de alguns comerciantes foram notáveis. O homem mais rico da Califórnia durante os primeiros anos da febre do ouro foi Samuel Brannan, que anunciou a descoberta de Sutter's Mill 44 . Brannan abriu as primeiras lojas em Sacramento, Coloma e outros lugares próximos dos campos de ouro. No começo da febre do ouro, Brannan comprou todos os artefactos de mineração (pás, bateias, etc.) disponíveis em San Francisco, e revendeu-os com consideráveis lucros 44 . Mas os pesquisadores de ouro também obtiveram importantes benefícios. Por exemplo, um pequeno grupo que trabalhava em Feather River em 1848, nuns quantos meses conseguiu mais de milhão e meio de dólares em ouro 45 .

Em média, os pesquisadores de ouro tiveram lucros modestos, uma vez deduzidos os gastos. Os que chegaram mais tarde ganharam muito pouco, ou mesmo perderam dinheiro 46 47 . De modo similar, muitos comerciantes desafortunados estabeleceram-se em povoações que desapareceram, ou foram vítimas de algum dos muitos incêndios que arrasavam as localidades 48 .

Outros homens de negócios conseguiram grandes lucros em revendas, embarques, entretenimento, hospedagem 49 e transporte 50 .

Em 1855, as circunstâncias económicas tinham mudado radicalmente. O ouro já não era tão fácil de obter, e a única forma rentável de o conseguir era com grandes equipas de trabalhadores, que já seriam empregados ou sócios 51 . Em meados dessa década, os donos das companhias mineiras eram os que enriqueciam. Além disso, a população da Califórnia tinha crescido tanto, e tão depressa, que a base económica se tinha diversificado muito, e era já possível obter ganhos nos negócios convencionais 52 .

O destino do ouroeditar | editar código-fonte

Uma vez que o ouro era recuperado, o metal podia tomar vários caminhos. O mais imediato era ser utilizado como moeda de troca para comprar provisões e pagar pela hospedagem dos mineiros. Com frequência, o ouro usado nestas transacções acabava de ser encontrado, e tinha sido cuidadosamente pesado e avaliado 53 .

Por seu lado, os comerciantes e vendedores utilizavam o ouro para comprar provisões aos capitães dos barcos que levavam mercadorias à Califórnia 54 . O ouro deixava a Califórnia a bordo de barcos ou em mulas. Um segundo destino era que os próprios Argonautas o levaram consigo ao partir, quando decidiam que tinham obtido o suficiente para voltar para casa. Estima-se que 80 milhões de dólares em ouro foram levados para França deste modo 55 . Com o avanço e a consolidação da febre do ouro, os bancos locais começaram a emitir notas de crédito ou notas, em troca de ouro 56 , e algumas casas de moeda privadas criaram moedas de ouro 57 . Com a construção da Casa da Moeda de São Francisco em 1854, o ouro transformou-se em moedas oficiais dos Estados Unidos, para circulação 58 . O ouro também foi enviado para bancos nacionais na Califórnia, em troca de papel-moeda corrente 59

Efeitos da corrida do ouroeditar | editar código-fonte

Efeitos imediatoseditar | editar código-fonte

Antes da corrida do ouro, a Califórnia tinha cerca de 15.000 habitantes, sem contar os ameríndios nativos 60 , e a chegada de centenas de milhar de imigrantes em tão pouco tempo, teve consequências dramáticas 61 .

Um cartaz anuncia viagens para a Califórnia

Os custos humanos e ambientais do fenómeno foram consideráveis. Os índios nativos da região foram vítimas de doença, fome e ataques genocidas 62 ; a população nativa, estimada em 150 mil habitantes em 1845, diminuiu abruptamente para menos de 30 mil em 1870 63 . Saíram leis explicitamente xenófobas, procurando afastar os imigrantes da China e da América Latina 64 . A quota mortal entre os imigrantes dos E.U.A. também foi severa, já que um em cada doze Forty-niners pereceu; os índices de criminalidade durante a febre do ouro foram extremamente altos 65 . O meio ambiente sofreu uma deterioração considerável, graças à gravilha, terra solta e químicos tóxicos empregados na mineração, que mataram animais e deterioraram habitats 39 40 .

A febre do ouro catapultou a Califórnia para o centro da imaginação global, convertendo-a no destino de centenas de milhar de pessoas, as quais frequentemente mostraram uma iniciativa, uma autonomia e uma civilidade notáveis. Neste período, fundara-se aldeias e cidades; também se convocou uma assembleia constituinte, que redigiu a Constituição do estado. Celebraram-se eleições, e os representantes foram a Washington para negociar a admissão da Califórnia como estado da União 66 .

A agricultura em grande escala (também chamada "a segunda febre do ouro da Califórnia" 67 ) começou também durante esta época 68 . Graças a este vertiginoso desenvolvimento, rapidamente floresceram igrejas, escolas, caminhos 69 e organizações civis 66 . A população também demandava uma eficiente rede de comunicações e conexões políticas com o resto do país. Em 9 de Setembro de 1850, a Califórnia conseguiu o reconhecimento como estado, convertendo-se no estado número 31 da União.

Fora do estado, as comunicações também melhoraram como consequência do fenómeno. O primeiro caminho-de-ferro transcontinental do mundo foi inaugurado no Istmo do Panamá em 1855 70 . Entre o Panamá e San Francisco començaram a navegar novas linhas de barcos de vapor, incluindo os barcos da Pacific Mail Steamship Company, onde os passageiros e carga faziam ligação com o caminho-de-ferro transcontinental. Desde Panamá zarpavam regularmente os barcos para a Costa Este dos Estados Unidos. Numa destas viagens, o navio S.S. Central America afundou frente à costa das Carolinas em 1857, vítima de um furacão. Estima-se que três toneladas de ouro se afundaram com o navio 71 72 .

O primeiro caminho-de-ferro transcontinental nos Estados Unidos foi inaugurado em 1869, mas seis anos antes abria o ramal ocidental em Sacramento. a construção desta linha foi financiada em parte com o ouro da Califórnia 73 . A linha unia o estado com o resto do país de um modo mais efectivo, reduzindo a viagem que tradicionalmente levava várias semanas ou até meses, a uns quantos dias.

A febre do ouro também estimulou várias economias em todo o mundo. Os fazendeiros do Chile, Austrália e Havai encontraram um grande mercado onde colocar os seus produtos, os bens manufacturados britânicos tinham grande procura, e da China chegava roupa e até casas pré-fabricadas 74 . Os preços aumentavam rapidamente, e o ouro da Califórnia estimulou o investimento e a criação de emprego noutros países 75 . O pesquisador de ouro australiano Edward Hargraves percebeu certa semelhança entre os terrenos californiano e australiano, e deduziu que era possível que na Austrália existisse ouro, em quantidades e depósitos similares. Quando Hargraves voltou à Austrália, efectivamente descobriu ouro, e despoletou a febre do ouro da Austrália 76 .

Efeitos a longo prazoeditar | editar código-fonte

O nome Califórnia ficou relacionado permanentemente à Corrida do Ouro, e, como resultado, também se relacionou ao que foi conhecido como o "sonho californiano". A Califórnia era vista como lugar de novos começos e grandes oportunidades, donde o duro trabalho e um pouco de sorte podiam ser recompensados com enormes riquezas. O historiador H. W. Brands fez notar que, nos anos posteriores à febre do ouro, o Sonho californiano difundiu-se pelo resto do país, e fez parte integral do novo Sonho americano.

O velho sonho americano....era o sonho dos puritanos, do almanaque de Benjamin Franklin....de homens e mulheres satisfeitos com acumular una modesta riqueza pouco a pouco, ano após ano após ano. O novo sonho era um sonho de riqueza instantânea, ganha num abrir e fechar de olhos, graças à audácia e à boa sorte. [Este] sonho dourado... converteu-se numa parte proeminente da psique americana apenas depois [de Sutter's Mill] 77 .


O sonho californiano atraiu gerações completas de famílias. Depois da febre do ouro, as actividades das mesmas diversificaram-se e converteram a Califórnia num centro de liderança constante em diversos ramos industriais. No princípio, os agricultores eram maioria 78 , e logo o foram os perfuradores de petróleo, os cineastas, construtores de aviões 79 , e empresas ponto com, que se sucederam no próspero âmbito industrial da Califórnia nas décadas seguintes à corrida do ouro.

Selo da Califórnia

Entre os legados da febre do ouro encontra-se o lema do estado: Eureka, que em grego significa "encontrei", além de que o escudo do estado consiste numa imagem alegórica da febre do ouro. O estado é conhecido como The Golden State, ou seja, "o estado dourado".

A equipa de futebol americano da NFL de São Francisco, os San Francisco 49ers, e as equipas homónimas de atletismo da Universidade Estatal da Califórnia em Long Beach, tomaram o nome dos pesquisadores de ouro do século XIX. A febre do ouro foi reflectida na literatura, nas obras de Mark Twain, Bret Harte, Joaquin Miller e outros.

A Estrada Estatal 49 da Califórnia percorre as encostas da Sierra Nevada, ligando vários locais nascidos durante a corrida do ouro 80 . Esta auto-estrada passa perto do Parque Histórico Estatal de Columbia, que conservou vários edifícios da época com fins turísticos.

Geologiaeditar | editar código-fonte

Crê-se que a alta concentração de ouro na Califórnia seja o resultado de forças que actuaram durante centenas de milhões de anos. Há aproximadamente 400 milhões de anos, a Califórnia jazia no fundo do mar. Vulcões submarinos depositaram lava e minerais, incluindo ouro, no leito marino. Há 200 milhões de anos, as placas tectónicas empurraram o leito marinho para baixo da massa continental americana 81 . Enquanto descia, o leito marinho ia afundando, e o magma resultante subiu até à superfície, arrefecendo na subida 82 . Quando este magma se solidificava, formaram-se alguns veios de ouro rodeados de quartzo 82 83 . os minerais e rochas solidificadas resultantes emergiram na Sierra Nevada 84 e se erodiram, expondo parte do ouro à superfície. As correntes de água se encarregaram então de levar o ouro encosta abaixo, e depositá-lo em leitos de gravilha nos ribeiros 85 . Os Forty-niners se concentraram inicialmente nestes depósitos 86 .

Notas e referências

  1. Para mapa de pormenor, veja-se California Historic Gold Mines, publicado pelo estado da Califórnia; acesso em 3/12/2006.
  2. Bancroft, Hubert Howe. History of California, Volume 23: 1848–1859. San Francisco: The History Company, 1888. pp. 32–34 p.
  3. Bancroft, Hubert Howe (1888), pp. 39–41.
  4. Holliday, J. S.. Rush for riches; gold fever and the making of California. Oakland, California, Berkeley and Los Angeles: Oakland Museum of California and University of California Press, 1999. p. 60 p.
  5. Bancroft, Hubert Howe (1888), pp. 55–56.
  6. Hispanófonos residentes na Califórnia.
  7. Brands, H.W. (2003), pp. 43-46.
  8. Starr, Kevin e Orsi, Richard J. (eds.). Rooted in barbarous soil: people, culture, and community in Gold Rush California. [S.l.]: Univ. of California Press, 2000. pp. 50-54 p.
  9. Brands, H.W. (2003), pp. 48-53.
  10. a b c Starr, Kevin e Orsi, Richard J. (eds.) (2000), pp. 50-54.
  11. "Quarenta e oitos", fazendo referência a 1848.
  12. Brands, H.W. (2003), pp. 197-202.
  13. Holliday, J. S. (1999) p. 63. Holliday menciona que os mais afortunados mineiros chegaram a acumular mais de um milhão de dólares em ouro, a preços actuais.
  14. Starr, Kevin e Orsi, Richard J. (eds.) (2000), p. 28.
  15. a b c Starr, Kevin e Orsi, Richard J. (eds.) (2000), pp. 57-61.
  16. Brands, H.W. (2003), pp. 53-61.
  17. a b Starr, Kevin e Orsi, Richard J. (eds.) (2000), pp. 53-56.
  18. Brands, H.W. (2003), pp. 61-64.
  19. Brands, H.W. (2003), pp. 93-103.
  20. Starr, Kevin e Orsi, Richard J. (eds.) (2000), pp. 57-61. Outros cálculos dão entre 70.000 a 90.000 pessoas chegadas durante 1849 (ibid. p. 57).
  21. Starr, Kevin e Orsi, Richard J. (eds.) (2000), p. 25.
  22. Brands, H.W. (2003), pp. 193-194.
  23. Starr, Kevin e Orsi, Richard J. (eds.) (2000), p. 62.
  24. Há um cálculo de 2.500, em Rawls, James, J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), p. 5.
  25. Starr, Kevin e Orsi, Richard J. (eds.) (2000), pp. 67-69.
  26. Holliday, J. S. (1999), pp. 115-123.
  27. Rawls, James J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), p. 235.
  28. a b Rawls, James J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), pp. 123-125.
  29. Rawls, James J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), p.127. No início da febre do ouro, o governo dos Estados Unidos tinha menos de 1.000 soldados na Califórnia.
  30. Rawls, James J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), p. 27.
  31. a b c Clay, Karen e Wright, Gavin. (2005), pp. 155-183.
  32. Brands, H.W. (2003), pp. 198-200.
  33. Imagens e descrição pormenorizada das ferramentas e técnicas utilizadas.
  34. Bancroft, Hubert Howe (1888), pp. 87-88.
  35. Rawls, James J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), p. 90.
  36. O sistema de pesos Troy é utilizado tradicionalmente para medir metais preciosos. O termo onça usado neste artigo refere-se a uma Onça Troy.
  37. a b c d Mining History and Geology of the Mother Lode (acesso em 16/10/2006).
  38. Starr, Kevin (2005), p. 89.
  39. a b Rawls, James J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), pp. 32-36.
  40. a b Rawls, James J. y Orsi, Richard (eds.) (1999), pp. 116-121.
  41. Rawls, James J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), p. 199.
  42. Rawls, James J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), pp. 36-39.
  43. Rawls, James J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), pp. 39-43.
  44. a b Holliday, J. S. (1999) pp. 69–70.
  45. Holliday, J. S. (1999), p. 63. Novamente, a preços de final de 2006.
  46. Holliday, J. S. (1999) p. 78.
  47. Calcula-se que menos de um em cada vinte teve lucros financeiros reais na aventura. Rawls, James J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), p. 7.
  48. Por exemplo, Joshua A. Norton juntou inicialmente uma fortuna, mas viu-se forçado a declarar-se na bancarrota em 1858. Acabou erraticamente pelas ruas de San Francisco, fazendo-se chamar "Imperador Norton I". Pelo contrário, Levi Strauss teve um grande êxito vendendo sobretudos em San Francisco em 1853 (os jeans Levi's só se inventaram na década de 1870).
  49. James Lick juntou uma fortuna com um hotel e especulando com bens de raiz em São Francisco. A fortuna de Lick foi utilizada para construir o Observatório Lick .
  50. Os chamados "Grandes Quatro", tiveram especialmente êxito no comércio durante esta época: Leland Stanford, Collis P. Huntington, Mark Hopkins e Charles Crocker, todos de Sacramento, tanto que financiaram o ramal ocidental da Ferrovia Transcontinental.
  51. Rawls, James J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), pp. 52-68.
  52. Rawls, James J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), pp. 193-197.
  53. Rawls, James J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), pp. 212-214.
  54. Rawls, James J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), pp. 256-259.
  55. Holliday, J. S. (1999) p. 90.
  56. Rawls, James J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), pp. 193-197; 214-215.
  57. Rawls, James J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), p. 214.
  58. Rawls, James J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), p. 212.
  59. Rawls, James J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), pp. 226-227.
  60. Starr, Kevin e Orsi, Richard J. (eds.) (2000), p. 50. Outros dizem que havia entre 7.000 e 13.000 europeus e Californianos, antes de Janeiro de 1848. Ver Holliday, J. S. (1999), pp. 26, 51.
  61. O historiador Hubert Howe Bancroft disse que a febre do ouro levou a Califórnia a "uma maturidade rápida e monstruosa"; o historiador Kevin Starr disse que, após todos os prós e contras, a febre do ouro "marcou as fundações, o ADN da Califórnia de hoje." Ver Starr, Kevin (2005), p. 80.
  62. Heizer, Robert F.. The destruction of California Indians. Lincoln and London: Univ. of Nebraska Press, 1974. p. 243 p.
  63. Starr, Kevin (2005), p. 99.
  64. Starr, Kevin e Orsi, Richard J. (eds.) (2000), pp. 56-79.
  65. Starr, Kevin (2005), pp. 84-87.
  66. a b Starr, Kevin (2005), pp. 91-93.
  67. Rawls, James J. r Orsi, Richard (eds.) (1999), pp. 243-248. Para 1860, Califórnia tinha mais de duzentos moinhos de farinha, e exportava farinha e trigo para todo o mundo. Ibid., pp. 278-280.
  68. Starr, Kevin (2005), pp. 110-111.
  69. Starr, Kevin. Americans and the California dream: 1850-1915. New York and Oxford: Oxford University Press, 1973. pp. 69-75 p.
  70. Harper's New Monthly Magazine março de 1855, Vol. 10, 58, p. 543.
  71. Hill, Mary (1999), pp. 192-196.
  72. Outro naufrágio memorável foi o do navio Winfield Scott que ia de San Francisco para o Panamá. O navio perdeu-se na ilha Anacapa, na costa californiana, em Dezembro de 1853. Neste acidente, todos os passageiros foram resgatados, assim como a carga de ouro.
  73. Rawls, James J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), pp. 278-279.
  74. Rawls, James J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), pp. 285-286.
  75. Rawls, James J. e Orsi, Richard (eds.) (1999), pp. 287-289.
  76. Younger, R.M. 'Wonderous Gold' em Australia and the Australians: A New Concise History, Rigby, Sydney, 1970.
  77. Brands, H.W. (2003), p. 442.
  78. "A agricultura dominou a era pós-febre do ouro e o desenvolvimento posterior, empregando mais gente que a mineração em 1869,....e ultrapassando a mineração em 1879 como principal actividade económica da Califórnia." Starr, Kevin (2005), p. 110.
  79. Entre outros, Hughes Aircraft, Douglas Aircraft, North American Aviation, Northrop, e Lockheed Aircraft
  80. Mapa completo da estrada 49, em inglês. Acesso Dez/2006.
  81. Hill, Mary (1999), pp. 168-169.
  82. a b Brands, H.W. (2003), pp. 195-196.
  83. Hill, Mary (1999), pp. 174-178.
  84. Hill, Mary (1999), pp. 169-173.
  85. Hill, Mary (1999), pp. 94-100.
  86. Hill, Mary (1999), pp. 105-110.

Ligações externaseditar | editar código-fonte

Commons
O Commons possui multimídias sobre Corrida do ouro na Califórnia

Em inglêseditar | editar código-fonte

Em portuguêseditar | editar código-fonte

Este é um artigo destacado. Clique aqui para mais informações








Creative Commons License