Hipátia
| Hipátia de Alexandria | |
|---|---|
| Hipátia de Alexandria - Gravura de Elbert Hubbard, 1908 | |
| Nascimento | ca. 351–370 Alexandria, Egito |
| Morte | 8 de março de 415 (60 anos)1 Alexandria, Egito |
| Ocupação | Filósofa e Professora |
| Influências |
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| Influenciados |
Influenciados
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| Escola/tradição | Neoplatonismo |
| Principais interesses | Matemática, astronomia, filosofia, religião, poesia, retórica, oratória |
| Ideias notáveis | Lógica, Matemática |
Hipátia (ou Hipácia; em grego: Υπατία, transl. Ypatía) de Alexandria foi uma matemática e filósofa neoplatônica, nascida aproximadamente em 355 e assassinada em 415. O fato de Hipátia ser uma filósofa pagã (num meio predominantemente cristão) é tido como um dos fatores que contribuíram para o seu assassinato.2 Porém, estudos mais recentes, como o da historiadora Maria Dzielska, salientam que Hipátia foi assassinada por razões políticas, no contexto da luta pelo poder em Alexandria.3
Índice |
Biografia editar
Hipátia era filha de Téon, um renomado filósofo, astrônomo, matemático, autor de diversas obras e professor em Alexandria.
Criada em um ambiente de idéias e filosofia, tinha uma forte ligação com o pai, que lhe transmitiu, além de conhecimentos, a forte paixão pela busca de respostas para o desconhecido. Diz-se que ela, sob tutela e orientação paternas, submetia-se a uma rigorosa disciplina física, para atingir o ideal helênico de ter a mente sã em um corpo são.
Hipátia estudou na Academia de Alexandria, onde devorava conhecimento: matemática, astronomia, filosofia, religião, poesia e artes. A oratória e a retórica também não foram descuidadas.
Alguns autores pensam que, quando adolescente, viajou para Atenas, para completar a educação na Academia Neoplatônica, onde não demorou a se destacar pelos esforços para unificar a matemática de Diofanto com o neoplatonismo de Amónio Sacas e Plotino, isto é, aplicando o raciocínio matemático ao conceito neoplatônico do Uno (mônada das mônadas).4 Ao retornar, já havia um emprego esperando por ela em Alexandria: seria professora na Academia onde fizera a maior parte dos estudos, ocupando a cadeira que fora de Plotino. Aos 30 anos já era diretora da Academia, sendo muitas as obras que escreveu nesse período.
Um dos seus alunos foi o notável filósofo e bispo Sinésio de Cirene (370 - 413), que lhe escrevia freqüentemente, pedindo-lhe conselhos. Através destas cartas, sabemos que Hipátia desenvolveu alguns instrumentos usados na Física e na Astronomia, entre os quais o hidrômetro.5
Sabemos também que desenvolveu estudos sobre a Álgebra de Diofanto ("Sobre o Cânon Astronômico de Diofanto"), tendo escrito um tratado sobre o assunto, além de comentários sobre os matemáticos clássicos, incluindo Ptolomeu. Em parceria com o pai, escreveu um tratado sobre Euclides.
Ficou famosa por ser uma grande solucionadora de problemas. Matemáticos confusos, com algum problema em especial, escreviam-lhe pedindo uma solução. E ela raramente os desapontava. Obcecada pelo processo de demonstração lógica, quando lhe perguntavam porque jamais se casara, respondia que já era casada com a verdade.6
O seu fim trágico se desenhou a partir de 412, quando Cirilo foi nomeado Patriarca de Alexandria, título de dignidade eclesiástica, usado em Constantinopla, Jerusalém e Alexandria. Ele era um cristão fervoroso, que lutou toda a vida defendendo a ortodoxia da Igreja e combatendo as heresias, sobretudo o Nestorianismo, que negava a Divindade de Jesus Cristo e a Maternidade Divina de Maria.2
Mudança do paradigma pagão para o cristão editar
O reinado de Teodósio I (379-392) marca o auge de um processo de transformação do Cristianismo, que efetivamente se torna a religião oficial do estado.7 Em 391, atendendo pedido do então Patriarca de Alexandria, Teófilo, ele autorizou a destruição do Templo de Serápis (não confundir com o Museu e a Biblioteca existentes em Alexandria, que não tinham nenhuma relação física com este templo), um vasto santuário pagão onde eram oferecidos sacrifícios de sangue, segundo os relatos dos historiadores contemporâneos Sozomeno e Tirânio Rufino.8
Embora a legislação de 393 procurasse coibir distúrbios, surtos de violência popular entre cristãos e pagãos tornaram-se cada vez mais frequentes em Alexandria, principalmente após a ascensão de Cirilo ao Patriarcado.
Morte editar
De acordo com o relato de Sócrates, o Escolástico 9 , numa tarde de março de 415, quando regressava do Museu, Hipátia foi atacada em plena rua por uma turba de cristãos enfurecidos. Ela foi arrastada pelas ruas da cidade até uma igreja, onde foi cruelmente torturada até a morte. Depois de morta, o corpo foi lançado a uma fogueira.
Segundo o mesmo historiador, tudo isto aconteceu pouco tempo depois de Orestes, prefeito da cidade, ter ordenado a execução de um monge cristão chamado Amónio, acto que enfureceu o bispo Cirilo e seus correlegionários.10 Devido à influência política que Hipátia exercia sobre o prefeito, é bastante provável que os fiéis de Cirilo a tivessem escolhido como uma espécie de alvo de retaliação para vingar a morte do monge. Neste período em que a população de Alexandria era conhecida pelo seu caráter extremamente violento, Jorge de Laodiceia (m. 361) e Protério (m. 457), dois bispos cristãos, sofreram uma morte muito similar à de Hipátia: o primeiro foi atado a um camelo, esquartejado e os seus restos queimados; o segundo arrastado pelas ruas e atirado ao fogo.11
Dito isto, a eventual relação de Cirilo com o ocorrido continua a ser motivo de alguma controvérsia entre os historiadores. Embora Sócrates e Edward Gibbon afirmem que o episódio trouxe opróbrio para a Igreja de Alexandria, não mencionam qualquer envolvimento direto do patriarca.12 O filósofo pagão Damáscio, por sua vez, atribui explicitamente o assassinato ao patriarca, que invejaria Hipátia.13 Contudo, a Enciclopédia Católica lembra que Damáscio escreveu cerca de um século depois dos fatos e que os seus escritos manifestam um certo pendor anticristão.14 As últimas pesquisas crêem que o homicído de Hipátia resultou do conflito de duas facções cristãs: uma mais moderada, ao lado de Orestes, e outra mais rígida, seguidora de Cirilo, responsável pelo ataque.15
Presença de outras mulheres na filosofia editar
Também na Escola Pitagórica “ora integrada na sua vida particular (de Pitágoras), como esposa, ora simplesmente na vida da Escola, a presença marcante de uma mulher, Theano, que ocupou certamente um lugar de destaque nos primórdios do pitagorismo. É também interessante destacar que Jâmblico, no seu catálogo de pitagóricos ilustres, elenca não uma, mas dezessete mulheres, e isso dentre as mais célebres que aderiram à sua doutrina”16 .
Obras editar
Nenhum trabalho escrito, amplamente reconhecido pelos estudiosos como da própria Hipátia, sobreviveu até o presente momento. Muitas das obras comumente atribuídas a ela se acredita-se ter sido obra de colaboração com o seu pai, Téon, esse tipo de incerteza autoral é típico dos filósofos do sexo feminino na Antiguidade17 .
A partial list of Hypatia's works as mentioned by other antique and medieval authors or as posited by modern authors:
- Um comentário sobre o volume 13 Arithmetica de Diophantus.18
- Um comentário osbre Cônicos de Apolônio de Pérgamo.18
- Editou a versão existente da obra Almagesto de Ptolomeu.19
- Editou o comentário de seu pai sobre a obra Os Elementos de Euclides20
- Escreveu um texto "O Cânone Astronômico".18 21 22
Suas contribuições para a ciência incluem o mapeamento dos corpos celestes23 e supostamente a invenção do hidrômetro,24 utilizado para determinar a densidade relativa (ou massa específica) de líquidos. No entanto, o hidrômetro foi inventado antes de Hipátia e já eraconhecido em seu tempo.25 26
Seu aluno Sinésio, bispo de Cirene, escreveu-lhe uma carta descrevendo a construção de um astrolábio27 . A existência do astrolábio antecede Sinésio em pelo menos um século28 29 ,e o pai de Hipátia ganhou fama por seu tratado sobre o assunto30 . No entanto, Sinésio afirmou que se tratava de um modelo melhorado27 .
Bibliografia editar
- Maria Dzielska, "Hipátia de Alexandria", Relógio d'Água, 1ª Edição, 2009, ISBN 978-989-6411-48-0
- José Carlos Fernández,Viagem iniciática de Hipátia: Na demanda da alma dos números, Edições Nova Acrópole, 314 páginas, 1ª Edição: Janeiro de 2010, ISBN 978-972-9026-83-6
Representações na Arte editar
- Filme Ágora (Alexandria no Brasil), de 2009, relatando sua vida, embora sem muita precisão histórica, como por exemplo ao confundir o Templo de Serápis com a Biblioteca e o Museu de Alexandria.
Referências
- ↑ Colavito,A. & Petta,A. (April 2004), Hypatia: Scientist of Alexandria. Milan, Italy: Lightning Print Ltd. (ISBN 9788848804202).
- ↑ a b Clifford A. Pickover. The Math Book: From Pythagoras to the 57th Dimension, 250 Milestones in the history of mathematics. [S.l.: s.n.].
- ↑ Maria Dzielska, Hipátia de Alexandria. Relógio d'Água. 2009
- ↑ A teoria das mônadas sustenta que somos todos Um, porque todas as mônadas estão ligadas entre si, evoluindo e trabalhando constantemente para a expansão do Todo (Universo Infinito).
- ↑ Sinésio de Cirene, Carta 15
- ↑ Segundo a enciclopédia bizantina "Suda", ela foi esposa do filósofo Isidoro.
- ↑ Stephen Williams,Gerard Friell,John Gerard Paul Friell. . [S.l.: s.n.].
- ↑ Sozomeno, Hist. Ecles. 7.15; Rufino, Hist. Ecles. 2.22
- ↑ Sócrates, o Escolástico, História Eclesiástica 7.15
- ↑ Sócrates, o Escolástico, Hist. Ecles. 7.14
- ↑ Evrágio, Hist. Ecles. 2.7
- ↑ Sócrates, Hist. Ecles. 7.15 / Edward Gibbon, A História do Declínio e Queda do Império Romano 47.2
- ↑ Damáscio. Live of Isidore (em inglês). [S.l.: s.n.]. Capítulo The Life of Hypatia, publicado no Suda.
- ↑ Catholic Encyclopedia: St. Cyril of Alexandria [1] (em inglês)
- ↑ Maria Dzielska, Hipátia de Alexandria
- ↑ Spinelli, Miguel. "Filósofos Pré-Socráticos. Primeiros mestres da filosofia e da ciência grega". 2ªed., Porto Alegre: Edipucrs, 2003, p.116
- ↑ David Engels: Zwischen Philosophie und Religion: Weibliche Intellektuelle in Spätantike und Islam, in: D. Groß (Hg.), Gender schafft Wissen, Wissenschaft Gender. Geschlechtsspezifische Unterscheidungen Rollenzuschreibungen im Wandel der Zeit, Kassel 2009, 97-124.
- ↑ a b c Suda online, Upsilon 166
- ↑ Dzielska 1995, pp. 71–2; "Até recentemente, os estudiosos pensavam que Hipátia apenas tinhas revisado o comentário de Téon no Almagesto. O ponto de vista foi baseado no título do comentário sobre o terceiro livro de Almagesto, que dizia o seguinte: "Comentário de Téon de Alexandria no Livro III do Almagesto de Ptolomeu, a edição revista por minha filha Hipátia, a filósofa". Cameron, que analisou os títulos de Téon para outros livros do Almagesto e para outros textos acadêmicos da antiguidade tardia, concluiu que Hipátia não corrigiu o comentário de seu pai, mas o texto do Almagesto. Assim, o texto existente do Almagesto poderia ter sido preparado, pelo menos em parte, por Hipátia".
- ↑ Grout, J. (n.d.). Encyclopaedia Romana: Hypatia. Página visitada em 2009-05-16.
- ↑ Dzielska 1995, p. 72
- ↑ (March 1994) "Hypatia and Her Mathematics". Mathematical Monthly 101: 234–243.
- ↑ Toohey, Sue (2003). The Important Life & Tragic Death of Hypatia. Skyscript.co.uk. Página visitada em 2007-12-09.
- ↑ Ethlie Ann Vare and Greg Ptacek, Mothers of Invention 1988, pp. 24–26.
- ↑ "Por uma questão de exaustividade, devemos mencionar o fato de que Sinésio em sua carta à Hipátia menciona um hidrômetro, que segundo alguns já era conhecido no século IV por Priciano, isto é, um século antes de Sinésio e Hipátia." R.J. Forbes. A Short History of the Art of Distillation: From the Beginnings Up to the Death of Cellier Blumenthal. [S.l.]: BRILL, 1 December 1970. p. 25. ISBN 978-90-04-00617-1
- ↑ "Em 402, Hipátia recebe uma carta do enfermo Sinésio, dando uma breve descrição do que ele chama de hidroscópio. Este é um instrumento científico que então era de uso comum, embora Hipátia é creditada frequentemente como sua inventora."Mary Ellen Waithe. Ancient Women Philosophers: 600 B.C. - 500 A.D.. [S.l.]: Martinus Nijhoff, 1987. p. 192. ISBN 978-90-247-3348-4
- ↑ a b "Em suas cartas, ele descreve um hidroscópio (na verdade um hidrômetro) que fez, bem como uma catapulta. Além disso, ele construiu o que os antigos chamavam de um astrolábio, um instrumento que demonstrou fenômenos celestes. Cícero descreve um inventado por Arquimedes e Hiparco fez outro, dois modelos a.C do primeiro século foram comemorados na Antologia grega."C. G. Thomas. Paths from ancient Greece. [S.l.]: BRILL, 1988. ISBN 978-90-04-08846-7
- ↑ "É geralmente aceito que os astrólogos gregos, tanto no primeiro ou segundo séculos a.C., inventaram o astrolábio".Robert E. Krebs. Groundbreaking scientific experiments, inventions, and discoveries of the Middle Ages and the Renaissance. [S.l.]: Greenwood Publishing Group, 2004. p. 196. ISBN 978-0-313-32433-8
- ↑ "A invenção do astrolábio é geralmente atribuída a Hiparco do segundo século a.C. Mas não há nenhuma evidência para apoiar este ponto de vista. No entanto, é certo que o instrumento era bem conhecido pelos gregos antes do início da era cristã."Sriramula Rajeswara Sarma. The archaic and the exotic: studies in the history of Indian astronomical instruments. [S.l.]: Manohar, 30 June 2008. ISBN 978-81-7304-571-4
- ↑ Chris Marvin, Frank Sikernitsky The Window:Philosophy on the Web
Ligações externas editar
- Revista Nova Acrópole
- Hypatia of Alexandria (com link (ligação) para o verbete sobre Hipátia, na enciclopédia bizantina "Suda") (em inglês).
- A História da Matemática - Hypatia










